O Vaticano não é apenas um centro espiritual. É uma entidade económica em expansão com o seu próprio banco, participações imobiliárias e burocracia operacional. Durante séculos, essa maquinaria funcionou com base na tradição e na hierarquia clerical. Isso mudou a partir de 2014.
O Papa Francisco viu a necessidade de limpar os livros. Ele estabeleceu a Secretaria de Economia. Esta não foi uma mudança cosmética. O novo órgão detém autoridade direta sobre todas as atividades económicas na Santa Sé e na Cidade do Vaticano. O objetivo era a transparência. O resultado foi um mecanismo de supervisão centralizado que responde diretamente ao Papa.
Mas a reforma financeira foi apenas metade da batalha. A podridão estrutural na Cúria Romana também precisava de ser corrigida.
Em 2016, Francisco ampliou sua reforma administrativa. Ele criou dois novos dicastérios (departamentos). Um deles foi o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida. Seu trabalho? Pastoral aos fiéis leigos e às famílias. O outro foi o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral. Este departamento se concentrou nas populações marginalizadas. Migrantes. Vítimas de conflitos armados. As pessoas muitas vezes ficam de fora dos circuitos de caridade tradicionais.
Esses movimentos mudaram o poder. Eles também mudaram o foco. Mas o maior choque veio em 2022.
Francisco emitiu uma nova constituição apostólica. Chama-se Praedicate evangelium (“Pregar o Evangelho”). Este documento não apenas ajustou regras. Reescreveu o manual de funcionamento da Cúria.
A mudança mais significativa? Quem lidera.
Anteriormente, apenas cardeais e bispos podiam chefiar estes departamentos principais. Francisco abriu a porta. Agora, qualquer membro fiel pode presidir um dicastério. A barreira da classificação foi removida. Em seu lugar, foram impostos limites de mandato.
Cinco anos. Essa é a duração padrão do compromisso. É renovável apenas uma vez. Isto quebra o modelo de mandato vitalício que definiu a liderança do Vaticano durante gerações. Isso força a rotatividade. Ele convida novas perspectivas.
E não parou por aí.
Francisco quebrou novamente a tradição ao nomear várias mulheres para chefiar estes dicastérios. Isso não foi simbólico. Essas mulheres dirigiam departamentos importantes. Eles gerenciavam orçamentos, equipe e estratégia. A hierarquia de género foi desafiada pela hierarquia de competência.
Por que isso é importante para o mundo em geral?
Porque o Vaticano é um modelo de mudança institucional. Mostra que mesmo as organizações mais consolidadas podem se adaptar. Isso prova que transparência não se trata apenas de contabilidade. É sobre quem se senta à mesa.
As reformas foram radicais. Eles reduziram o monopólio clerical. Eles aumentaram a responsabilidade. Eles abriram a liderança para leigos e mulheres.
Mas a adaptação cria atrito. Tradições de longa data não desaparecem da noite para o dia. Há resistência. Há questões sobre continuidade.
Ainda assim, a direção é clara. A Cúria está se tornando mais secular. Mais responsável. Mais diversificado.
Está terminado? Não.
A reforma é um processo. A estrutura é nova. A cultura ainda precisa se atualizar.
Mas o precedente está aberto.

















