A maioria das pessoas não pensa em economia até o vencimento da conta. Mas a mão invisível do mercado toma constantemente decisões sobre o que é produzido e o que não é. Um dos maiores pontos cegos na economia de livre mercado é o manejo dos bens públicos. Trata-se de produtos ou serviços cuja oferta é sistematicamente insuficiente no mercado, deixando uma lacuna que geralmente requer intervenção governamental para ser preenchida.
Para entender o porquê, é necessário observar duas características específicas: não-exclusividade e não-esgotamento. Um bem não é excludente se você não puder impedir alguém de usá-lo, uma vez que ele exista. Não é esgotável (ou não rival) se o uso de uma pessoa não reduz a quantidade disponível para outras.
O ar puro é o exemplo clássico. Você não pode excluir ninguém de respirá-lo. Se eu respirar, o ar não “se esgota” para você. A mesma lógica se aplica à defesa nacional. Um país não pode proteger apenas os proprietários de um lado da rua da agressão estrangeira e ao mesmo tempo permitir que os outros sejam invadidos. Proteger um residente não diminui a proteção do vizinho.
Mas há um outro lado. Maus públicos também existem. São coisas não excludentes e não esgotáveis, mas prejudiciais. O ar poluído se enquadra perfeitamente nesta definição. Se o ar for tóxico, todos sofrem, independentemente de quem causou a poluição ou de terem beneficiado pessoalmente da actividade industrial que criou o smog.
Como os bens públicos diferem dos bens privados
Os bens privados são o oposto dos bens públicos. Eles são excludentes e esgotáveis. A comida é a ilustração mais simples. Se você comer uma maçã, ninguém mais poderá comê-la. O suprimento está esgotado. Você também pode facilmente excluir pessoas de sua comida trancando-a na geladeira ou comprando-a em uma loja com caixa registradora.
Nem tudo cabe perfeitamente em uma caixa. Alguns itens são excludentes, mas não esgotáveis. Pense em um concerto musical. O local pode cobrar pelos ingressos (excludente), mas meu gosto pela música não impede que você aproveite também (não esgotável).
Outros são não excludentes, mas esgotáveis. Uma praia pública pode caber aqui. Qualquer pessoa pode caminhar na areia (não excludente), mas se aparecer muita gente a experiência piora. A praia fica lotada, cheia de lixo e menos atraente. Ele se esgota pelo uso excessivo, mesmo que você não consiga impedir as pessoas de virem.
O problema da falha de mercado
Por que essa distinção é importante? Porque os bens públicos tendem a ser subabastecidos pelo mercado livre. As empresas que maximizam os lucros olham para os resultados financeiros. Se eles não puderem cobrar pelo ar limpo, não o produzirão. Se não conseguirem impedir que respire ar poluído, terão poucos incentivos financeiros para parar de poluir.
Isto leva ao que os economistas chamam de “falha de mercado”. Indivíduos e empresas com interesses próprios produzirão e consumirão em níveis que são ótimos para eles, mas prejudiciais para todos os demais coletivamente. O resultado agregado é muitas vezes pior para a sociedade como um todo. Os níveis de poluição podem aumentar até que os danos superem os lucros, mas nessa altura todos estarão em pior situação do que se alguém tivesse restringido a produção.
As soluções comuns para estas falhas envolvem a intervenção governamental. Os impostos podem desencorajar a produção de males públicos, como os impostos sobre o carbono sobre a poluição. Os subsídios podem encorajar a criação de bens públicos, como o financiamento da investigação básica ou da defesa nacional.
A armadilha da ação coletiva
O problema com os bens públicos não é apenas uma questão de economia. É sobre comportamento humano. Reflete problemas de ação coletiva, como votação ou protestos. Se você votar e seu candidato vencer, você se beneficiará da vitória mesmo que não tenha votado. O benefício não é excludente.
Isso cria um incentivo perverso. Porquê gastar tempo e energia votando se é pouco provável que o seu único voto altere o resultado? Por que participar de um protesto se você terá as mesmas proteções legais, quer marche ou fique em casa? Quando o custo da contribuição é alto e o impacto individual é baixo, as pessoas tendem a aproveitar os esforços dos outros.
É por isso que os bens públicos exigem frequentemente contribuições obrigatórias ou financiamento público. Sem isso, o sistema depende de um punhado de altruístas ou de um governo coercitivo para fornecer o que todos precisam, mas ninguém quer pagar individualmente.
A tensão entre a liberdade individual e a necessidade coletiva não é nova. É o atrito central na política e na economia. Esperamos que o mercado lide com a maioria das coisas, mas quando se trata de coisas que pertencem a todos, o mercado muitas vezes se afasta. A questão não é se o mercado irá fornecê-lo. A questão é quem intervirá e que preço estamos dispostos a pagar pelo ar que respiramos e pela segurança de que desfrutamos.


















